Insistência

Insistente quero viver.

Quero viver ante o corpo antagônico,

quero viver amalgama de fatos,
quero viver perverso-ínfimo ao vento,
quero viver no dar-me introvertido,
expositude e sabre-pré-sanguíneo,
o aneurisma em dedicatória incompreensível,
o fim simplório da lua cheia,
o desolhar que esquece a alheia,
o passageiro que incendeia,
o transporte do corpo,
morto e pânico.

Insistente,
quero morrer,
quero morrer como o por do sol,
quero morrer por inadmissível,
quero morrer de morte-una,
eu e o nada,
instituído pelo futuro,
uma endemia única de pluralidades afetivas,
a intromissão de anseio e desejos,
a explosão-exangue e o azul poético,
o fim premonitório da escolha,
o desolhar enluarado,
o olhar sem ética,
o mundo cego,
a piedade cataléptica.

Quero morrer como hoje quis,
e ontem sonhei assim,
e antes eu não sonhava,
e antes ingenuizava,
e hoje desoxigeno,
com a força da covardia,
que desonera a vontade,
e apóia meu ser eterno,
que morre ao querer verter,
e vive ao querer morrer.

Quero viver pelo abraço inalcançável,
flor-de-âmago, alma-assertiva:
porque tão patética e tão mortal, porque tão ascética e tão chacal, porque tão vívida e tão in vitro, porque tão magnífica e formol, porque tão mínima e tão mito, porque tão turva e tão adorável,
se me queres tão vivo e tão morrível?

Insistente quero viver.
Tenho compromissos com o catavento,
tenho que deslizar no tempo,
derribar meu pensamento,
querer o poema pretérito,
e o dizer futuro,
o corpóreo-sopro,
que me enrola e joga,
no perfeito dorso,
do chorar sem mérito,
no covil do estorvo,
o sofrer do porco,
lástima de chiqueiro,
lágrima de bombeiro,
apagar da chama,
no querer que morro.